• Nestor Rabello

Sobre redes sociais e puxa-sacos

Atualizado: Jul 27

É difícil achar gente autêntica nas redes - mas isso está mudando


Eu juro que não vi isso acontecer. E, fazendo um mea culpa, é parte da minha intransigência com novidades em meu campo profissional, sobretudo porque venho de uma linha mais oldschool que pode ser bastante tradicionalista e cabeça dura.


Mas quando falamos sobre redes sociais, sinto que essa resistência me autorizou a ter um olhar mais analítico e distante sobre o que acontece com a sociedade no meio digital.


Photo by Eaters Collective at Unsplash


É claro que, como tudo na Internet, há pontos positivos e negativos quando falamos sobre redes sociais - devo dizer, mais coisas boas que ruins.


De longe, o grande benefício é que não há limites para o que uma pessoa pode ou não realizar, profissional e pessoalmente; ficamos mais próximos, mesmo quando longe e o nosso alcance aumenta. Quando nos sentimos vulneráveis, ficamos livres para nos expressar e encontrar conforto quando, no mundo físico, nem sempre há. Mas vejo, do lado negativo, algo perigoso e que coloca em risco o que é de positivo.


Primeiro, qualquer um é produtor de conteúdo. E isso, por si só, não é um problema. Passa a ser quando essa pessoa, sem ter credenciais para tanto, assume uma pretensa identidade como forma de ganhar dinheiro.


Segundo, se qualquer um é produtor de conteúdo, suas conexões passam a ser seu mercado imediato. E isso, separadamente, também não é um problema. Passa a ser quando essa pessoa é tida como especialista em assuntos sérios que podem afetar a vida dos outros.


É daí que multiplicamos coaches, influencers (do quê, exatamente?), historiadores informais, médicos oníricos e gente que te promete ficar milionário desde que adquira seu ebook por R$ 400,00.


Terceiro, ninguém quer se indispor com ninguém. Nenhum influencer, artista ou personalidade quer um exército de fãs atacando e diminuindo seus números e chances de gerar publicidade.


Ou seja, temos um problema de representatividade. E acho que isso está começando a mudar. Mas antes quero falar sobre arte.


O jabá cria raízes


O que quis mostrar com essa introdução é que tornamos as redes sociais um ambiente clean demais, conformista, com grande alcance e, claro, maior possibilidade de vendas.


E tudo bem. Se tivéssemos transparência a altura.


Vamos pegar o que ocorre com a classe artística. A figura do crítico independente, hoje, acabou. E a crítica é importantíssima - mesmo quando ela erra. Vamos lembrar que, nos anos 1970, a Rolling Stone esculachava o Led Zeppelin. Uma crítica ruim sobre um filme praticamente o arruinava. Nos anos 1980, uma crítica desfavorável foi capaz de enterrar a bilheteria de The King of Comedy, do Scorsese.


E esse antagonismo gera frutos. A crítica te move para frente, te irrita e instiga a sair do lugar comum. Precisamos ter capacidade e maturidade de, se não concordarmos, ao menos tentarmos compreender de onde veio o posicionamento.


Mas a crítica só é válida se houver uma separação entre crítico e criticado. Se não, é jabá. E o que é jabá? É uma forcinha que um meio ou alguém de expressão dá para que um produto, serviço ou marca chegue determinado público-alvo recebendo algo em troca.


As redes sociais borraram esse limite. Se a crítica é eliminada, só há negócios sendo feitos e mercados sendo movimentados.


É importante, portanto, que cobremos transparência dos agentes que operam nas redes sociais. Se o consumidor sabe que o conteúdo transmitido é patrocinado, obviamente terá a noção de que se trata de publicidade. Se ele não sabe, está sendo enganado e caiu no jabá - ou melhor, publipost.


Sobre artistas


Lembro-me que a pessoa que eu mais gostava de observar no cenário do entretenimento era o Lobão. E aqui, para nosso exercício, vamos ignorar a guinada conservadora dele. Não se pode negar ele sempre diz o que vem à mente, qualquer que seja a consequência. É um polemista.


Lembro-me, também, do caso entre Chorão e Marcelo Camelo, que começou a namorar com Mallu Magalhães quando ela tinha uns 16 e ele uns 30 (foi gratuito, eu sei, só queria provocar mesmo).


Bem, o dono dos Los Hermanos acusou o dono do Charlie Brown Jr. de ter se “vendido à coca-cola” por causa de um comercial (sabíamos que era pago). Na intimidade, Camelo dizia que não era bem isso, que iria parar. Não parou, e como resultado ganhou um nariz quebrado - nada mais justo.


Que fique claro: eu não apoio a violência. Mas apoio que as pessoas sejam verdadeiras. Goste ou não, você sabe quem ela é, o que apoia e como age. Hoje, não sabemos. Há um jogo de aparências entre artistas, fãs e marcas, com o objetivo de evitar a todo custo polêmicas ou algo que desagrade determinado público-alvo.


Dou outro exemplo:


Em uma live no início da pandemia, o sertanejo Gusttavo Lima virou tequilas, cervejas, vodka e qualquer coisa com etanol, ficando completamente ébrio. Pode até parecer irreverente. Porém, levando em conta o comportamento de seu público, seus anunciantes e a letra das músicas que as rádios propagam, se tratou de uma atitude calculada e dentro do script, algo que certamente lhe rendeu frutos.


Fãs, algoritmos e espontaneidade


“Ele chegou lá por um motivo”.


“Você está criticando, por que não faz melhor?”.


São argumentos (?) comuns àqueles que defendem o criticado. No entanto, isso tem uma razão de ser. O excesso do marketing de conteúdo nas redes anestesiou parte das pessoas.


Se não há espaço para críticas, se há apenas produtos a serem vendidos e se o consumidor não sabe muito bem se o que está consumindo é um publipost, a tendência é mesmo que haja uma uniformidade de opiniões.


E isso gera outro problema: a uniformidade do próprio conteúdo. Se no texto temos regras de SEO que despersonalizam qualquer coisa, no cinema temos roteiros baseados em algoritmos, na música - a mais profunda das artes - também temos uma fórmula para caber dentro das novas relações em rede.


Nesse caso, temos o novo comportamento do consumidor por conta dos serviços de streaming, que substituíram as mídias físicas. Você pode gerar números de reprodução, mas não significa que você criou uma base sólida de fãs.


Alguém lembra do Trapt? Bem, era uma banda de new metal que teve um hit só, cujo vocalista teve um completo meltdown no Twitter e ficou competindo números com outros artistas. No Spotify, consta 1,9 milhão de ouvintes mensais.


Bom, peguemos o Sepultura, nosso orgulho brasileiro. Há 900 mil ouvintes mensais na plataforma. Quem é mais lembrado? Quem lota mais shows? Quem é convidado para os concorridos festivais europeus? Dica: ninguém lembra do Trapt, pelo amor de Deus.


Mas isso é um nicho muito específico. Os fãs de heavy metal são tradicionalmente mais fiéis, e tendem a escutar a tudo com atenção. E em outros estilos de música?


Em outros estilos, aqueles mais comuns às paradas, o hábito mudou drasticamente. Cada vez menos pessoas escutam álbuns por inteiro, uma sequência de canções do mesmo artista ou algo fora de uma playlist. Quando muito, uma música inteira.


Esse novo comportamento alterou completamente a maneira de fazer música no mainstream.


Produtores, atentos a isso, criaram uma fórmula matemática - e inteligente - de se aproveitar, sobretudo, do déficit de atenção geral da sociedade atual.


Se antes a música tinha dinâmica - uso do silêncio, mudança de ritmos, introduções, etc. - agora ela precisa chegar no refrão nos primeiros 30 segundos e, de preferência, sem artifícios musicais muito complexos. O uso ao extremo de compressores ajuda a dar ganho sônico ao áudio e evitar que a atenção se perca.


Isso faz com que o ouvinte seja conquistado rapidamente e ouça, ao menos, um terço da música - o suficiente para contabilizar royalties.


Mudança


Mas tenhamos fé! Vejo que tudo isso está mudando. Claramente, passamos por um momento de exagero que, agora, tende a se normalizar.


Vemos que os internautas assumiram uma voz mais crítica, ativa e participativa. Preferem fazer parte de uma comunidade, em vez de apenas constar em números de visualizações. O valor do conteúdo mudou. Não se trata mais de grana, e sim qualidade.


Há uma tentativa positiva de uma parte dos influencers, por exemplo, de mostrar uma faceta mais autêntica e diferenciada para seu público. Isso está inserido dentro da percepção de uma demanda reprimida por conteúdos mais bem desenvolvidos e interessantes.


Com a pandemia do novo coronavírus, isso se aguçou. Presas dentro de casa, é natural que as pessoas procurem material que lhe deem alento, aumentem a sensação de conexão e que ajudem a entender as difíceis mudanças que estamos enfrentando.


E isso é muito bom. Com sorte, passaremos a ter uma relação mais transparente, consumir produtos melhores, com mais significado para nossas vidas dentro e fora das redes sociais.


E você? Acha que a crítica perdeu espaço nas redes? Comenta aí!


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