• Ana Luiza Noronha

Relatos de uma viajante em isolamento social

Para aqueles tomados pelo "wanderlust" a pandemia tem sido confusa. Sintam-se abraçados com esse relato.

Levantar cedo, sem nem ao menos ter dormido direito. O coração acelerado. Última verificada na mala, colocar a pasta, escova de dente, arrumar o cabelo, colocar a roupa, pegar a mala. Entrar no carro. Ah! Enfim o cheiro de aeroporto. O movimento, as chegadas e despedidas. O barulho da mala arrastando pelo chão.



Photo by Annie Spratt on Unsplash

Um último lanche antes de embarcar. Confere passagem, procura o assento, quase quebra a coluna colocando a mala no compartimento superior. O cheiro do avião. Os sorrisos trocados com estranhos. Aquela esbarrada de braço constrangedora nas cadeiras apertadas.


Chegar em uma cidade, Estado ou país diferente. Cheiros novos, pessoas diferentes, cultura diferente. O prazer de fazer check-in no hotel, hostel ou apê alugado. A hora de largar a mala, trocar de roupa e ir explorar o novo lugar. Os restaurantes diferentes, a comida de rua, o senhor da esquina pintando quadros, conversas espontâneas com locais.


Absorver tudo e qualquer coisa que conseguir. Tirar fotos, mas também registrar aqueles momentos que merecem ficar apenas na memória. Novas pessoas, novos gostos, um novo eu. A cada viagem nos reinventamos. Cada lugar, acrescentando uma nova parte.


É, vai demorar...


Saudades de viajar, né minha filha?


Pode parecer exagero, mas o que me move é o desejo de viajar. O famoso wanderlust. A profissão que eu escolhi, foi algo que posso fazer viajando. Os meus sonhos são em quase sua totalidade sobre lugares que quero conhecer.


Poucas coisas me fazem mais feliz do que estar dentro de um avião indo para algum lugar. A expectativa e a quebra da expectativa. Não tem como realmente aprender sobre uma cultura sem ir ao local. Não tem.


Para esse ano, eu tinha algumas viagens planejadas. Algumas que cancelei e outras que comecei a sonhar mais para frente. Os planos de todos foram adiados por conta da pandemia do Covid-19, mas os planos de viagem são os que mais me deixam na dúvida.


O "novo normal" do turismo


Outros países já estão em fase de abertura, com uma segurança real e baseada no achatamento da curva. Companhias aéreas, pontos turísticos e hospedagens já estão se adaptando à essa nova realidade. Apesar de ser uma realidade bizarra e triste, faço aqui uma confissão: algumas restrições e cuidados fizeram muito mais sentido para mim, como a necessidade de deixar um lugar vazio no avião entre os passageiros. Quem nunca sonhou em ter esse espaço extra, sem precisar implorar para todos os deuses?


O novo formato de visita do Louvre é muito mais atraente. O visitante agora vai marcar o horário online, a sala da Mona Lisa terá marcações no chão para manter a distância (sem multidões se empurrando!). Todo mundo terá oportunidade de ver a obra de Da Vinci a uma distância de 3 metros.


Por outro lado, quem insistir em viajar a Disney por agora irá encontrar um parque sem desfiles, espetáculos noturnos (os famosos fogos de artifício), apresentação em jantares temáticos, encontros com os personagens e as tradicionais troca de bottons.


Como vai ser a vida do viajante brasileiro?


O cenário do coronavírus aqui é um dos piores do mundo todo. Com isso, vemos as notícias de bloqueio de entrada de brasileiros só aumentando. O pioneiro foi o país queridinho do presidente: os Estados Unidos e agora países da União Europeia fizeram o mesmo


Sendo assim, não podemos nem viajar à nossa própria sorte e fugir para um país com um governo responsável que já conseguiu controlar o Covid-19 em seu território.


Em geral, países que proibiram a entrada de brasileiros e estrangeiros já estão controlando o coronavírus em seu território, a exemplo do Canadá, Japão, Espanha e até mesmo a Itália, que fora alvo de comoção mundial pelo número elevado de mortes. Número este que o Brasil já superou há um bom tempo.


Caso o governo não encontre uma forma mais eficaz de conter o coronavírus no país, nós não teremos muitos destinos livres por um tempo. Com a reabertura da economia em diversos Estados, sem que haja queda nos casos, essa realidade não deve mudar tão cedo.


Os brasileiros só devem voltar a viajar ao exterior ano que vem, sendo otimista, mas isso significa que devemos viajar ano que vem?


Responsabilidade dos viajantes Sim, eu entendo. Eu também estou com os dedos coçando para comprar as passagens em promoção que apitam todos os dias no meu celular. A minha intenção é trazer a reflexão sobre a nossa responsabilidade com o mundo.


Podemos carregar o vírus conosco para países que já estão com tudo controlado, transmitir para trabalhadores de aeroportos e comissários de bordo. Não existe nada melhor do que conhecer uma cultura nova, conversar com os locais, trocar experiências. Mas vale a pena?


Vale a pena viajar e não poder ver o sorriso no rosto da senhora que vende comida de rua? Vale a viagem, se você vai ter que manter a distância? Eu entendo que vamos ter que nos adaptar à essa nova realidade até uma vacina surgir, mas será que não podemos esperar mais um pouco?

Nós viajantes não podemos ser irresponsáveis e egoístas de achar que podemos viajar só porque as rotas estão abertas e os países estão nos aceitando de novo. Temos que estar atentos à realidade do país que estamos indo e o motivo pelo qual estamos viajando.


Se o país não tem estrutura no setor de saúde para aguentar um novo surto de coronavírus, devemos ir até lá? Qual a capacidade de leitos de UTI na cidade do interior que vamos só para “descansar um pouco”?


E o setor de turismo? As reflexões sobre a nossa responsabilidade em viajar possuem outro lado tão importante quanto. Muitos trabalhadores sobrevivem do turismo precisam que as atividades retornem o mais rápido possível, como o “seu João” que vende coco na praia, e não somente as companhias aéreas.


Segundo a Organização de Turismo Mundial, as pequenas ilhas em desenvolvimento (Small Island Developing States), estão em estado crítico e precisando de auxílio. Afinal, boa parte da economia é baseada no turismo. Em países do continente africano, por exemplo, o Covid-19 causou efeitos desastrosos no setor.


Assim, nos encontramos entre ajudar essas pessoas aproveitando férias e colocando dinheiro no setor de turismo ou levando o vírus para aquele local e causando mais um surto de coronavírus.


Nosso papel


Por fim, são tempos estranhos e não sabemos o que é 100% certo ou errado. Acredito que nós viajantes podemos cumprir nosso papel e abdicar das viagens por um tempo. Talvez, a solução seja incentivar o turismo interno e a economia interna de seu país, e até mesmo de sua própria cidade. Uma pesquisa realizada em 2019 pela consultoria britânica Oxford Economics aponta que o turismo corresponde a 8,1% do PIB brasileiro. Por isso, acredito que o momento seja de turismo dentro do país, com responsabilidade e quando os casos estabilizarem (esse dia vai chegar!). Por enquanto, fiquemos em casa.


Enquanto isso, para matar a saudade da sensação gostosa de conhecer um lugar novo ou reconhecer um lugar já antes visitado: vale ler livros, assistir filmes, revisitar vídeos de viagens, planejar as próximas. Mas, sempre, ficar em casa. Esse é um tema sensível né? Conta nos comentários a sua opinião e compartilha com os amigos para ver o que eles acham!


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