• Nestor Rabello

Os perigos da falta de pensamento crítico nas organizações

Vivemos um processo de eliminação das diferenças de ideias na sociedade


Extrapolando a tradicional falta de diversidade social no mercado de trabalho, hoje profissionais também precisam se submeter ao processo de homogeneização do pensamento crítico dentro das organizações, públicas e privadas.


Corre no mercado de comunicação em Brasília o descontentamento com o processo seletivo de uma entidade que ganhou projeção política nos últimos anos. A organização procura alinhamento total do candidatos aos seus ideais políticos, realizando um teste ideológico como procedimento classificatório.

ColiN00B/Pixabay


Na avaliação do psicanalista, escritor e professor do Departamento de Psicologia da USP, Christian Dunker, isso sugere um perigoso sintoma da polarização política do país nos últimos anos. Além de um sinal de paranoia sistêmica por parte das organizações.


“Você tem um diagnóstico que vem do apagamento do espaço público como diversidade. As empresas, sociedade organizada, escolas e organizações culturais se estruturam e expandem a partir de um espaço homogêneo, que eu chamo de lógica do condomínio. Cria-se um muro”, disse o psicanalista à Think Network.


A lógica do condomínio foi conceituada por Dunker em 2015, no livro “Mal-estar, Sofrimento e Sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros”. A ideia é uma analogia com o avanço dos condomínios residenciais no país como ideal de consumo, um simbolismo que faz referência a uma retórica de que o outro representa uma ameaça e precisa ficar longe.


Saiba mais sobre o conceito aqui:


Para Dunker, os efeitos disso podem ser da instauração de uma patologia narcísica e de paranoia sistêmica, que abre espaço para ideais persecutórios e da elaboração de instrumentos institucionais para estabilizar as diferenças.


“Os processos [nas empresas] ficam mais fáceis e rápidos. Você começa a conversa já no terceiro capítulo, de forma acelerada, mas pobre e que tende a instaurar a paranoia sistêmica, reduzindo a criatividade, a produtividade e aumentando a polarização”, resume.


Muros de pensamento


Há exemplos claros da criação de inimigos imaginários e da problemática abordada por Dunker.


Ainda no começo do mandato do presidente Jair Bolsonaro, que notoriamente alimenta uma relação conflituosa com correntes de pensamento contrário, houve um processo chamado de “despetização”.


O primeiro caso foi o do então ministro-chefe da Casa Civil, Onyz Lorenzoni, que conseguiu paralisar o órgão que é o coração do Executivo por conta da demissão indiscriminada de funcionários.


Segundo o próprio Onyx, hoje ministro da Cidadania, foram exonerados 320 funcionários em cargos comissionados com “marca ideológica clara”, mesmo com o PT fora poder desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Resultado: faltaram funcionários para movimentar as exonerações e nomeações, e alguns funcionários tiveram de ser renomeados para resolver o impasse.


O chamado aparelhamento do Estado não é novidade no Brasil, e nem procedimento exclusivo do governo Bolsonaro. Comportamentos autocráticos e sem ampla discussão são recorrentes em se tratando de gestão do Executivo. Mas agora passam a ganhar espaço em outros setores da sociedade organizada, anabolizados pelas redes sociais.

“É uma maneira de produzir pontos de identidade e estabilização da lógica num universo de linguagem nova e ampla do meio digital [...] A homogeneização vai minando sua capacidade de produção, a não trabalhar em grupo, a não se abrir para novas experiências, a não conseguir escutar”, afirma Dunker.


Exemplo disso é o movimento chamado Escola Sem Partido, que busca evitar uma suposta “doutrinação” de crianças e adolescentes na escola, mas que, na verdade, incentiva formas autoritárias (como filmagens em sala de aula) para constranger e expor professores que estimulam a discussão de diversas linhas de pensamento e crítica.


Efeito pendular


Para o psicanalista, contudo, há um processo de mudança à vista, como num efeito pendular. "Muito provavelmente teremos um refluxo crítica, assim como é compreensível que políticas regressivas não tolerem a abertura nos últimos tempos em termos de costume. Agora, temos motivos e razões para o ressurgir da crítica”, finaliza.


Durante a ditadura militar, ficou conhecida a frase do então magnata da Globo Roberto Marinho ante às tentativas do regime em perseguir jornalistas de esquerda: "Dos meus comunistas cuido eu". Parecem tempos distantes, mas a paranoia é assustadoramente familiar aos anos de chumbo no país.

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