• Nestor Rabello

Os efeitos da pandemia no sexo - e no amor

O período de confinamento deve alterar como casais se relacionam em casa e na cama


O Brasil está prestes a entrar no quinto mês da pandemia do coronavírus, sem que haja diminuição dos casos de contágio e deve superar a casa das 100 mil mortes em breve. Tudo indica que o período de restrição social, mesmo flexibilizado, terá importantes impactos na forma com que as pessoas se relacionam sexualmente.


A dinâmica social foi duramente afetada nesse contexto, e as relações passaram a contar com forte influência virtual. E, na vida dos casais, muita coisa poderá mudar daqui para frente.


Dainis Graveris/Pixabay


Para casais que acabaram ficando juntos no mesmo local durante o período, duas hipóteses: a quebra da idealização ou o fortalecimento da relação. Para as pessoas que ficaram separadas, saudade e a tentativa de reinventar a relação em condições que não estavam previstas.


Na avaliação da psicóloga Enylda Motta, especialista em sexualidade na Faculdade de Medicina da USP, casais estão num processo de redescobrir seus relacionamentos. “Os casais que estão tendo que ficar afastados estão reinventando o namoro, formas sexuais e prazeres”, aponta.


Nesse sentido, casais estão dialogando mais por conta do distanciamento, e é possível ainda que exista a possibilidade de rediscutir os termos do contrato amoroso.


“Acredito que haverá, como já está acontecendo, uma maior abertura ao diálogo, abertura também aos diversos modos de relacionar-se e as novas formas de relacionamento. A quarentena trouxe novas formas de amar, de amor e de relacionamentos”, explica Enylda.



Para os casais que estão passando pelo período juntos, pode ser um pouco mais complicado. Há uma tendência para o tensionamento das relações.


A especialista avisa avisa que isso pode agravar casos e episódios de violência doméstica. Em abril, as denúncias de violência contra a mulher subiram 37% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados do governo.


Porém, o quadro de tensões é realidade também para casais que tinham um relacionamento saudável anteriormente - isto é, sem violência. Com a aproximação imposta pela pandemia, precisaram ficar frente a frente.


“Fora a questão da violência, as pessoas estão tendo que resolver questões pendentes, tendo a oportunidade de mudar o que não está bom ou saudável”, ressalta.


Ainda assim, mesmo que haja impactos negativos nos relacionamentos amorosos, a tendência é de um cenário de diálogos mais abertos entre os casais e com o contínuo uso de ferramentas virtuais.


Aumento da pornografia


Os efeitos amorosos e sexuais da pandemia não ficaram apenas na vida íntima dos casais. Especialistas se preocupam, ao mesmo tempo, com o aumento do uso de pornografia e os transtornos que isso pode gerar aos consumidores.


Em condições normais, o uso da pornografia já vinha sendo considerado como excessivo: a gigante da indústria pornográfica Pornhub fechou o ano de 2019 com 42 bilhões de acessos, e quase 115 milhões de visitas diárias.


Segundo a ONG Enough is Enough, a popularização dos canais pornográficos tem gerado impactos negativos entre adolescentes. Também é causa frequente de divórcios em adultos. A entidade alerta ainda para a busca massiva por termos como “teen” (adolescente) e por pornografia com violência física.


Pornografia e confinamento


Neste ano, pesquisadores de diversas universidades internacionais passaram a estudar os efeitos do confinamento no consumo excessivo desse material. O levantamento do Journal of Behavioral Addictions compilou dados do Pornhub. A pesquisa levantou que, desde janeiro, a busca pelo termo “coronavírus” chegou a 9,1 milhões de cliques.


Com a adoção do isolamento social em diversos países, desde março, o Pornhub decidiu liberar o acesso a conteúdo pago, o que contribuiu para aumentar o crescimento de tráfego no site.


Segundo a pesquisa, o acesso global a sites pornográficos chegou a 24% entre fevereiro e março em algumas regiões do mundo. Em localidades em que o acesso gratuito ficou disponível na plataforma, o crescimento atingiu 61% em países como Itália, Espanha e França.


A publicação alerta para as possíveis consequências desse aumento e recomenda um estudo aprofundado sobre como as pessoas lidam sexualmente com o confinamento.


“As mudanças nos padrões do uso de pornografia levantaram questões sobre possíveis causas de uso preocupante de pornografia e questões de saúde. O estresse pode afetar a saúde mental e levar a um aumento do uso da pornografia. Pessoas em tratamento contra uso compulsivo de pornografia passaram a consumir mais material extremo ao longo do tempo”, diz o periódico.


Transtorno compulsivo


A compulsão por sexo ainda é um tabu na sociedade e, de maneira geral, as pessoas não acreditam muito que isso possa acontecer. Mas o transtorno existe, e inclusive é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. Além disso, pesquisadores identificam a relação entre o uso de pornografia em excesso e o aumento desses quadros.


“Atualmente, existe um aumento expressivo de compulsão sexual, assim como a busca pela pornografia e nudes”, explica a psicóloga Enylda Motta. “A vasta opção de pornografia tem afetado o comportamento das pessoas em relação ao sexo, que passa a se tornar foco central na vida da pessoa”, continua.


De acordo com ela, é mais comum que transtornos comportamentais e compulsivos ocorram entre homens, causando condições como disfunção erétil e ejaculação precoce ou retardada, mas também geram alterações fisiológicas em mulheres.


“O homem pode ter tanto uma disfunção erétil que pode levar a uma ejaculação precoce por ansiedade de desempenho e também uma ejaculação retardada porque aquela relação pode não mais satisfazer”, alerta.


Nas mulheres, pode haver transtornos de desejo e excitação, podendo levar a perda da libido ou dificuldade de atingir o orgasmo.


Pode se masturbar, sim


A masturbação é um ato natural e saudável. No entanto, é preciso ficar atento para o uso excessivo pornografia, já que o abuso pode alterar a percepção da realidade do sexo pelo indivíduo e causar problemas psicológicos e fisiológicos. “Há a remodelação neural do que a pessoa considera uma relação sexual perfeita”, diz Enylda.


Os vídeos pornôs podem super estimular a liberação de dopamina no cérebro, podendo expor a pessoa a um quadro de transtorno compulsivo. É sempre importante lembrar que padrões da indústria pornográfica não são os mesmos da vida real.


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