• Nestor Rabello

Novos ventos em Washington anunciam mudanças na política externa brasileira

A possível vitória de Joe Biden nas eleições dos EUA deve alterar postura do governo brasileiro

A possível eleição do democrata Joe Biden nos Estados Unidos deve impactar de forma considerável a atual política externa do governo brasileiro. As chances dos democratas voltarem ao poder são grandes, o que naturalmente seria um baque para o Brasil depois da intensa aproximação da família Bolsonaro à figura de Donald Trump.


Em termos geopolíticos, pouco mudaria na disputa entre os norte-americanos e os chineses em meio à batalha por maior influência na América Latina e, consequentemente, no Brasil. Nesse contexto, dificilmente os Estados Unidos abandonariam a estratégia de desbancar a China como superpotência mundial.


Alan Santos/PR


“Mesmo que Biden seja eleito, a tendência é que a posição dos EUA [em relação à China] não mude”, explica o coordenador do programa de pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais do Mackenzie, Márcio Coimbra.


Em 2021, está em jogo a disputa pela implementação do 5G no país, o que pode ser um ponto fundamental para que as duas potências aumentem a influência no continente. “A posição entre EUA e China pode abrandar, mas não vai mudar. A pressão em relação ao 5G no Brasil e em outros países é uma disputa geopolítica estratégica. Os EUA não podem lançar satélites no Brasil, se aqui houver tecnologia chinesa”, diz Coimbra.


A reaproximação entre Brasil e Estados Unidos é recente, a partir do governo Michel Temer. Com Bolsonaro a estratégia ficou mais centrada em se alinhar com a figura populista de direita, do que propriamente ao Estado norte-americano. Isso teria de mudar com Biden eleito, o que obrigaria o governo a estabelecer novos canais diplomáticos em Washington, contou uma fonte ligada ao Itamaraty à Think Network.


Segundo Coimbra, contudo, o Brasil dispõe de muitas chances de adequar sua diplomacia com os democratas de volta à Casa Branca. “O ministro Ernesto Araújo [Relações Exteriores] já foi o número dois em Washington, conhece os meandros da política americana”, disse ele, ressaltando o pragmatismo da política externa da potência.


Não à toa, o ministro Ernesto Araújo, conhecido por suas declarações polêmicas e ideológicas, adotou um discurso neutro durante uma entrevista à CNN nesta semana.

“Temos trabalhado bem com o governo Trump e se houver reeleição em setembro, temos certeza que vai avançar. Se não houver, se Biden for eleito, acredito que vamos manter a boa relação. A aliança é com os Estados Unidos, não com o presidente Trump”, afirmou.



Mudança de ventos


O cientista político Márcio Coimbra, que chegou a participar de campanha presidencial nos EUA, ressaltou duas razões para a derrocada de Trump: sua atuação em relação à pandemia do coronavírus, o que emudeceu a economia norte-americana (que vinha bem), e a polêmica envolvendo a morte de George Floyd, em Minneapolis, um estopim para a retomada da pauta racial e de minorias no país.

“Com a morte de George Floyd, a agenda das minorias entrou na pauta e por isso Biden escolheu Kamala Harris [senadora democrata] para ser sua vice. Ele foca na mesma estratégia de vitória de Obama - de se voltar às minorias”, aponta Coimbra.

Divulgação/Gabinete Kamala Harris


A estratégia de Biden cai como uma luva em colégios eleitorais em que Hillary Clinton perdeu, mesmo que por pouco, em 2016. São Estados onde o voto das minorias são fundamentais, assim como o dos setores industriais, como Michigan, Pensilvânia, Wisconsin, Iowa e Flórida.


Coimbra afirma que mais importante ainda é observar a liderança de Biden em Ohio, uma região considerada essencial para conquistar as eleições norte-americanas. “As pessoas costumam dizer que quem leva Ohio ganha as eleições. O Estado é tradição nos Estados Unidos. Assim como Minas Gerais é um ‘mini-Brasil’, Ohio é também um retrato dos americanos”, explica.


Segundo o agregador de pesquisas eleitorais Real Clear Politics, o democrata está na liderança também em Ohio. Nacionalmente, está na frente por 8,3 pontos percentuais em relação a Donald Trump.


Discurso moderado


Para Coimbra, a sociedade norte-americana escolheu um outsider em Trump, em eleições bastante polarizadas em 2016. A liderança do democrata pode indicar que os norte-americanos considerem rever essa opção.


“A gente tem que ver se os EUA querem continuar com Trump. Normalmente, adotam um caminho de maior moderação, então acredito que ele tenha sido um ponto fora da curva”, aponta. A falta de moderação de Trump, inclusive, é mal vista por republicanos tradicionais, aqueles que apoiam uma pauta conservadora, mas que não é reacionária.


Em 2016, ele considera que Hillary Clinton não inspirava a mesma confiança ou senso de renovação que a chapa de Biden - considerado um animal político - e não havia uma figura como Kamala Harris, uma senadora de primeiro mandato, negra e indiana.


Assim, a moderação do discurso representa um desafio para o governo brasileiro, que precisa conservar a aliança com os Estados Unidos, mas que domesticamente adota um discurso similar ao de Trump para manter viva a militância bolsonarista.


1 comentário

Think!

  • Facebook
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

© 2020 by Think! Proudly created with Wix.com

Think! Newsletter

  • Instagram - Black Circle