• Nestor Rabello

Encontros, desencontros e relações de qualidade

Atualizado: Jul 30

Muito mudou desde o início do milênio, mas ainda buscamos conexão

Em um quarto de um luxuoso hotel, homem e mulher de diferentes gerações estão deitados numa cama. Não há sexo, não há beijos. Somente silêncio com lampejos de conversa sobre existência e senso de propósito.


“Estou estagnada”, diz a jovem adulta Charlotte. “Isso melhora?”. “Não”, responde o famoso ator Bob Harris, no auge da crise de meia-idade.

Divulgação/Netflix


Charlotte é interpretada por Scarlett Johansson e Harris por Bill Murray. O filme é Encontros e Desencontros, obra de 2003 que alçou Sofia Coppola ao panteão de Hollywood, ainda que em meio ao machismo entre os cinéfilos.


Há muito mais neste filme que a história de um amor impossível em meio a uma trilha sonora shoegaze. Encontramos, principalmente, a busca por conexão emocional e por uma razão que nos faça evoluir.


Em inglês, o filme se chama Lost In Translation - “Perdido na Tradução” numa tradução literal. Não é um título em vão. Somos transportados para Tóquio na companhia de dois personagens que não falam japonês.


Bob Harris, casado há décadas, é um famoso ator em decadência que está na terra do sol nascente para lançar um uísque japonês. Ele não compreende o diretor do comercial, não entende os japoneses e, principalmente, a si mesmo. Já Charlotte acompanha o marido fotógrafo e passa a maior parte do tempo sozinha no quarto.


A barreira da língua, contudo, é uma coadjuvante. Os dois personagens tentam, mas não conseguem se comunicar com seus parceiros. Diálogos não têm sequência, não há toque (ou troca), muito menos conexão.


Da necessidade de falar e ser escutado, os dois se encontram. Das pressões do mundo em constante transformação, há a esperança de que da ligação entre eles surja um propósito. Por fim, isolados em si mesmos, buscam companhia.


A busca


Ao longo da vida, sofremos várias mortes. Quando acaba o erotismo, o tesão e a troca de experiências - a pulsão de vida - morremos. Seja no relacionamento, seja na própria existência quando a busca por conhecimento, o ser-no-mundo, cessa.


É assustador que, de 2003 a 2020, pouco tenha mudado para além do óbvio - a tecnologia. O sentimento de isolamento, apesar de estarmos conectados virtualmente, foi anabolizado. Hoje, temos a oportunidade de nos expressarmos livremente em uma rede global, mas ainda assim muita gente se encontra falando sozinha.


Passamos anos nos acostumando com cada vez menos contato e relações fugazes e agora, mais do que nunca, sentimos falta do que não vivemos (oi, Neymar). E, talvez, não voltemos a viver em muito tempo.


Assistimos à Netflix sozinhos em nossos quartos, entre uma checada ou outra no Twitter; desistimos de pedir comida em um restaurante porque ele não está no iFood, optamos por construir playlists para cada ocasião dessa montanha-russa emocional que se tornou o cotidiano, muito antes do coronavírus.


Redes são sintoma


Há anos, estudiosos vêm alertando para o aumento de condições como ansiedade, depressão, baixa autoestima, desatenção e hiperatividade diante da popularização das redes sociais. Em 2018, pesquisa do Social Journal of Social & Clinical Psychology afirmou que há correlação entre esses sintomas ao uso desenfreado das mídias sociais.


Mas as redes sociais não são as culpadas por gerar tristeza ou solidão. Na verdade, elas podem ser vistas mais como um sintoma de nossa sociedade, algo inevitável diante da incessante procura por prazer a todo custo e por relações baseadas pelo consumo, como já alertava Zyngmunt Bauman no início do milênio.


O mundo é o mesmo em relação a 2003. Há apenas mais tecnologia envolvida. Bob e Charlotte estariam de cabelos em pé na Tóquio de 2020.


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