• Ana Luiza Noronha

Desafios do jornalismo no cenário atual

Entrevista com Luiz Roberto Serrano sobre jornalismo, democracia, redes sociais e fake news.

Os desafios do jornalismo do Brasil perduram há alguns anos. A imprensa brasileira enfrentou mais de 20 anos de ditadura militar, com períodos de censura mais rígida, principalmente no governo Costa e Silva (1967-69), com a instauração do 5º Ato Institucional (o famoso AI-5), e no de Médici (1969-74), considerado o período de maior repressão. A censura dos meios de comunicação foi intensificada e prisioneiros políticos foram torturados.



Photo by Elijah O'Donnell on Unsplash

Mesmo com o fim da ditadura em 1985, os jornalistas brasileiros ainda não estavam totalmente seguros ao exercer sua profissão. Um relatório do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) revelou que entre 1995 e 2018, 64 profissionais da comunicação foram mortos exercendo a profissão. A Unesco classificou o Brasil como o 6º país mais perigoso do mundo para jornalistas.


O documento da entidade expressa uma preocupação com a dificuldade estrutural das polícias judiciárias, devido a falta de soluções para os crimes contra a imprensa. Dos 64 casos, sete estão sem informação e outros sete não tiveram solução, até a publicação do relatório em 2019.


Em meio a tudo isso, o jornalismo - mundial e brasileiro - passa ainda por mudanças técnicas drásticas, uma crescente desvalorização dos profissionais pelas empresas, com salários baixos e a falta de obrigatoriedade de currículo. Além de ataques frequentes do governo à imprensa, principalmente quando esta se posiciona contrária às suas ações.


Os ataques trazem uma séria preocupação com a segurança da democracia no Brasil. O jornalismo funciona como um contraponto do governo e deve ser vigilante. Para falar sobre esse momento delicado, a Think! chamou o jornalista Luiz Roberto Serrano para uma conversa.


Serrano é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP, na turma de 1974, desde então construiu sua carreira em importantes jornais brasileiros. Foi repórter na Gazeta Mercantil, editor de Economia e Brasil na Istoé, editor de Economia na Exame e na Veja.


Luiz Roberto Serrano

Além disso, foi assessor de imprensa do presidente do PMDB, Ulysses Guimarães na Campanha das Diretas, e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Atualmente, é superintendente de Comunicação Social da USP. Está por trás do Jornal da USP e comanda o projeto “Desafios” no Canal USP, uma série de entrevistas que discute os atuais desafios econômicos e sociais do Brasil.





Leia os destaques da nossa conversa a seguir. Ao final da matéria, disponibilizamos o áudio da entrevista na íntegra.


O papel do jornalista na democracia


Luiz Roberto Serrano: Os regimes democráticos precisam ser alimentados com informações de como a sociedade está funcionando certo? Em todos os seus aspectos: políticos, sociais, econômicos, na área de saúde, na área de educação. É o papel do jornalista noticiar como as coisas estão se desenvolvendo, em todas essas áreas. Contando histórias, levantando notícias, dando opiniões e entrevistando pessoas.

É fundamental para você ter uma visão real do que acontece naquela sociedade e, nesse sentido, ele tem um papel fundamental para garantir o funcionamento democrático da sociedade, ao lado das outras instituições que são o Congresso, o Executivo, o Judiciário.


Projeto de combate às Fake News


Luiz Roberto Serrano: Olha, essa é uma questão muito complexa. Nós estamos falando principalmente das redes sociais. É um terreno enorme e complexo.


Os veículos tradicionais de comunicação têm regras editoriais para publicar notícias verdadeiras, comentários verdadeiros, perfis de pessoas verdadeiros, porque é assim que se constrói a credibilidade de um veículo. É assim que também se evita processos judiciais contra o que foi publicado. Eu não vejo por que essas regras não sejam transferidas para as mídias sociais. Certo?


Eu não conheço todos os detalhes da legislação que está sendo discutida, mas acho muito interessante que ela seja discutida. Quanto mais discutido, mais aparecerem esses poréns e ela [proposta] tende a ficar melhor.


O grande benefício que as mídias sociais trazem é a multiplicação da possibilidade das pessoas falarem exporem e debaterem. Isso, de uma forma bem feita, vem modificando questões sociais importantes, vem modificando a política. Enfim, tem um espaço altamente benéfico para todos da sociedade e que é preciso evitar que o uso fraudulento prejudique essa melhor utilização.


Mercado de trabalho para os jornalistas


Luiz Roberto Serrano: Eu acho que o grande desafio está aí na base financeira e vocês vão experimentar isso. Ganhar uma visibilidade, uma importância que gera algum tipo de atração de renda para vocês continuarem. Eu acho que também existe muito espaço para o jornalista de opinião e análise, digo isso porque a captação da informação é um processo que exige presença nas várias fontes de notícia.


Os grandes veículos que têm condições de por jornalistas nos lugares onde são gerados notícias ou terem estruturas de reportagem de enviar gente ou até infraestrutura técnica para fazer entrevistas.


Nesse sentido, as grandes organizações, a agências de notícia internacional, rádio, televisão, mídia impressa, os grandes veículos têm a força de poderem buscar as notícias onde estiverem. Então, eu vejo para o jornalistas, o campo mais forte é o da opinião, da análise. O campo da cobertura específica de um determinado tema no qual tenha intimidade.



Precarização da profissão


Luiz Roberto Serrano: Bom, a questão da precarização da profissão é uma coisa que vem de longe, é lamentável. Não só prejudica e encolhe o mercado de trabalho, mas por outro lado promove uma certa precarização na apuração das informações. É a precarização somada à dinâmica da internet que requer rapidez. Todo mundo trabalha muito rápido, a rapidez é contra a qualidade da informação. Tudo isso é ruim e enfraquece o conteúdo jornalístico, enfraquece o campo de trabalho dos profissionais.



A nossa profissão neste momento está meio abandonada. Não só pela legislação. Os empresários do setor ao rebaixarem salários, estão rebaixando também a qualidade do serviço que prestam à sociedade. Deveriam se preocupar com isso, não porque são bonzinhos, mas porque vão vender menos.




As críticas à imprensa


Luiz Roberto Serrano: Essa crítica vem muito mais de quem não gosta de ser criticado e de que os veículos de comunicação apontem as falhas dos seus governos ou das suas ações sociais ou empresas com mal produtos, coisas deste tipo, do que especialmente deste quadro de fragilidade [da profissão] que eu coloquei. Acho que na ponta, os maiores veículos de comunicação ainda se preocupam em preservar a qualidade técnica da informação.


Imprensa e democracia


Luiz Roberto Serrano: A imprensa é a ponta vigilante da sociedade, tem uma frase muito citada do Millôr Fernandes: ‘Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados’. O jornal pra ser importante e respeitado, para influenciar, ele tem que ser crítico para a sociedade que ele cobre. Não estou dizendo que precisa ser mau humorado, contra tudo e contra todos.


Assinantes precisam acreditar no jornal, para isso, o jornal tem que ser sério. Editorialmente correto, tem que trazer discussões interessantes, informações interessantes, tem que vigiar o governo, tem que ter analistas. De certa forma, a crise que a internet provocou, prejudicando o negócio de publicidade dos jornais, jogou os jornais na mão do assinante. Isso, a longo prazo, pode ser uma vantagem, por que o assinante vai exigir um bom produto. Qual é a maior qualidade de um produto jornalístico: credibilidade.


Esses foram alguns destaques da conversa com o jornalista Luiz Roberto Serrano, ouça a entrevista na íntegra:



Think!

  • Facebook
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

© 2020 by Think! Proudly created with Wix.com

Think! Newsletter

  • Instagram - Black Circle