• Equipe Think

Bolsonaro, ONU e a batalha das versões

Presidente volta a distorcer fatos em favor de sua narrativa

De volta à Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), o presidente Jair Bolsonaro, assim como no passado, adotou renovado discurso fora da realidade no âmbito do esforço para melhorar a imagem do Brasil no exterior. A julgar pela cobertura dos veículo de imprensa estrangeiros, não conseguiu.


À parte do ruído ideológico que o governo costuma empregar, o discurso deste ano foi classificado como “enganação” (The Brazilian Report), “mentiroso” (Deutsche Welle) e uma “distração”, segundo o britânico The Guardian. Não se tratam de colunas de opinião, mas de coberturas factuais do evento.

Marcos Corrêa/PR


Apesar de tanta desinformação por parte do governo brasileiro, e aquelas propagadas nas redes sociais, veículos - de maneira geral - tem se tornado mais rigorosos ao cobrir eventos declaratórios, principalmente por parte de líderes como Bolsonaro e o norte-americano Donald Trump.


Não à toa, ambos os presidentes, à sua maneira, tentaram polir as polêmicas envolvendo as ações governamentais dos dois países em relação ao cuidado com o meio-ambiente e o combate (ou falta de combate) à pandemia causada pelo novo coronavírus.


Em relação ao meio-ambiente, particularmente as queimadas na Amazônia e Pantanal, que são recorde, Bolsonaro voltou a atribuir a repercussão dos casos a “interesses escusos” por parte de instituições internacionais e brasileiras que são “aproveitadoras e impatrióticas”.


Ao problema na Amazônia, afirmou ser difícil a fiscalização devido à magnitude do território e disse que os incêndios são fruto da ação de “índios e caboclos”. Nota técnica do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) afirma o contrário: metade das queimadas no primeiro semestre deste ano ocorreram em latifúndios de médio e grande porte, acima de 440 hectares. Confira aqui o documento.


Já em relação ao Pantanal, disse: “O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”.


Na verdade, a Polícia Federal já reuniu provas para indiciar fazendeiros do Mato Grosso pela ação de propagar incêndios na região. Reportagem do UOL mostra que os peritos identificaram que o início dos focos de incêndio ocorreram em 30 de junho, no mesmo horário, em quatro propriedades localizadas na região oeste do rio Paraguai. Você pode conferir mais detalhes aqui.


Mas é em relação ao coronavírus que Bolsonaro brilha. Afirma ter sido vítima de decisão judicial, que deu a governadores a delegação das medidas de restrição, e coube ao governo federal apenas lidar com recursos e logística. “Parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus”.


Não é novidade que o objetivo da narrativa do governo é evitar a responsabilização pelo saldo negativo do combate: 140,7 mil mortes até o momento, além de um caos na economia.


Contudo, a medida judicial a qual ele se refere é uma adotada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) que deu autonomia - e não responsabilidade total - para que os governos estaduais agissem para adotar medidas de restrição. Autonomia é diferente de obrigação. Veja, inclusive, a repercussão entre senadores sobre a medida, em abril (o Senado é a Casa que representa os estados brasileiros).


À época, o entendimento do governo era que as medidas de restrição, assim como a decisão de definir o fechamento de comércio, serviços, e movimentação de pessoas seria do governo federal.


Bolsonaro editou uma Medida Provisória e baixou um decreto para garantir o controle do combate da pandemia pela União, em resposta à atuação dos governadores. Mais tarde, o STF entrou em jogo para respaldar a autonomia dos entes federativos.


Antes do STF julgar a questão, Bolsonaro deu um giro em Brasília e ameaçou baixar um decreto para forçar a normalização das atividades econômicas.


Para Bolsonaro, contudo, pouco importa. Na batalha pela reeleição, e medidas que visam competir com os governos adversários do Rio de Janeiro (Wilson Witzel) e de São Paulo (João Dória), vale tudo. Inclusive, afirmar que brasileiros receberam US$ 1 mil de auxílio.


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