• Nestor Rabello

Como o boicote ao Facebook vai mudar nossa relação com as redes sociais

Atualizado: Jul 18

Boicote à empresa de Mark Zuckerberg pode alterar como consumimos conteúdo online


O ano de 2020 já pode ser considerado um daqueles definitivos na história da humanidade. Tensões políticas internacionais e domésticas misturam-se com a mais grave pandemia global do século e, certamente, devem alterar o comportamento da sociedade. As redes sociais não são exceção e, neste momento, passam por um momento decisivo.


Desde 2016, quando Donald Trump venceu as eleições nos Estados Unidos, vivenciamos a forte transferência do debate político e social para as mídias sociais, sobretudo por causa da crise de representatividade em democracias em todo mundo. Fato é que a forma como discutimos e consumimos conteúdo online mudou substancialmente.


Photo by Wikimedia Commons


Em um período de apenas quatro anos empresas e consumidores se tornaram mais conscientes e ativos diante do que ocorre no meio virtual.


No centro da atual problemática estão a empresa de Mark Zuckerberg, grandes anunciantes e políticos discutindo sobre a disseminação em massa de Fake News e discursos de ódio.


“Stop Hate for Profit”

Desde junho, centenas de marcas - incluindo gigantes como a Unilever e Coca-Cola - aderiram à campanha “Stop Hate For Profit”. Lançada por entidades de defesa dos direitos civis nos Estados Unidos, a campanha é uma das consequências da morte de George Floyd em Minneapolis.


Ela propõe um boicote de anunciantes ao Facebook e cobram uma postura mais rígida da maior rede social do mundo contra à disseminação de notícias falsas e publicações de ódio.


Empresas do mundo todo demonstraram apoio à causa, já antecipando uma cobrança mais altiva por parte dos consumidores. Confira aqui a lista completa de empresas que aderiram à campanha.


Linha do tempo

A seguir, alguns dos impactos dessa sucessão de acontecimentos nos mercados financeiro, publicitário e editorial:


  • 02/06/2020: Mark Zuckerberg mantém publicação de Donald Trump criticada por incitar a violência contra manifestantes nos EUA;

  • 08/06/2020: o editor de opinião do New York Times, James Bennet, pede demissão depois de publicar um artigo do senador Tom Cotton defendendo repressão militar contra protestos;

  • 25/06/2020: a gigante de telecomunicações Verizon anuncia que vai suspender campanhas no Facebook;

  • 26/06/2020: Unilever e Coca-Cola aderem ao boicote a Zuckerberg;


Como resultado prático, o Facebook chegou a perdeu, em um só dia, US$ 56 bilhões em valor de mercado diante da adesão da Unilever e Coca-Cola à campanha de boicote. Uma soma alta, considerando que a empresa registrou mais de US$ 70 bilhões em receitas provenientes de publicidade no ano passado.


Com a palavra, Mark Zuckerberg


O impacto nas finanças e na credibilidade da empresa talvez tenham sido os maiores estímulos para que Zuckerberg alterasse seu discurso.


Quando os protestos contra a morte de Floyd eclodiram, o Facebook foi levado ao centro da polêmica. Não apenas Zuckerberg manteve no ar uma inflamada publicação do presidente dos EUA, Donald Trump, como seu aparente desinteresse em combater publicações similares, ou piores, causou uma espécie de motim dentro da empresa.


Na ocasião, o CEO do Facebook afirmou “não ser árbitro da verdade” e que a mensagem de Trump não violava as condutas da empresa, apesar de não concordar pessoalmente com as mesmas.


Acusado de se omitir do combate contra notícias falsas, e com a amplitude do boicote, Zuckerberg prometeu mudanças, que foram recebidas com ceticismo.


“Estamos expandindo nossa política para proibir que alegações contra pessoas de certas raças, etnias, origem, religião, classe, orientação sexual, identidade de gênero ou imigrantes sejam consideradas uma ameaça aos outros”, disse, em uma publicação.


Leia aqui o comunicado na íntegra.


O fim do status quo


Além do Facebook, o boicote também afeta o Twitter, rede essencial para o segmento de comunicação e espaço em que autoridades se sentem mais à vontade para falar com seus apoiadores.


A tendência de disseminação global da campanha aos poucos se torna uma realidade, e trará consigo efeitos importantes. Para as empresas, será necessário rever os critérios em termos de publicidade e, principalmente, onde seu dinheiro será alocado para isso.


No lado dos consumidores, um aumento da cobrança em relação às empresas redes sobre conteúdos e produtos anunciados já está em curso.


Para as autoridades, virá a necessidade de ter maior consciência que o uso das redes sociais se equivale ou pode ter ainda mais relevância do que é dito fora delas.


Brasil vs. EUA


O alinhamento entre Jair Bolsonaro e Donald Trump não se limita à ideologia, ao estilo truculento e beligerante.


Ambos são heavy users - para utilizar o termo do meio - de redes sociais, e quebraram paradigmas quanto ao uso dessas ferramentas em suas eleições. Elas foram decisivas tanto para Trump quanto para Bolsonaro em suas respectivas campanhas.


Embora tenham se valido delas, não escaparam de polêmicas. No caso de Trump, há o escândalo da Cambridge Analytica.


O escândalo ocorreu porque a empresa de marketing político causou um enorme vazamento de dados de usuários de Facebook. Isso serviu para traçar o comportamento do eleitorado e oferecer propaganda direcionada, a título de anúncios no feed do usuário, o que influenciou fortemente a ascensão do republicano à Casa Branca.


De novo, o Facebook dentro de um escândalo. A empresa é acusada de ter tido políticas flexíveis em relação ao dados de usuários e oferecido dados de forma indiscriminada aos desenvolvedores de apps. Mark Zuckerberg chegou a depor no Senado americano.


Vale lembrar que o ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, foi um dos artífices do escândalo da Cambridge Analytica.


Bannon, não à toa, é querido pelo clã Bolsonaro. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) encontrou-se diversas vezes com Bannon durante a campanha eleitoral brasileira e nutre uma ligação próxima da família presidencial e de apoiadores importantes para o bolsonarismo, como o escritor Olavo de Carvalho.


Cambridge à brasileira


Em linha com o caso Cambridge Analytica, o Brasil tem uma polêmica para chamar de sua. Reportagem da Folha de S.Paulo, publicada antes do segundo turno, apontou que empresários bolsonaristas bancaram uma campanha de disparos em massa contra o PT, o oponente à época.


O episódio, negado pelo governo, é uma ponta do que viria a ser praticado pelo chamado “Gabinete do Ódio”, responsável por disseminar notícias falsas e queimar reputações. A suspeita é que o mecanismo seja comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro. O esquema é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


Redes e eleições


As redes sociais tiveram uma participação indispensável nas eleições norte-americanas e nas nossas. Políticas de proteção de dados e curadoria de conteúdo frouxas contribuem para que as empresas responsáveis pelas redes sociais sejam acusadas de serem omissas com Fake News e discursos de ódio.


No Brasil, essa discussão acaba de ganhar escopo, diante das investigações conduzidas pelo Supremo e a crise institucional entre Executivo e os demais Poderes.


Tramita no Senado um projeto de lei que visa combater a prática. No entanto, entidades de direitos na Internet e representantes da sociedade civil alertam para o conteúdo do texto e afirmam que o mesmo abre brechas para censura. As empresas de mídias sociais também são contra o projeto.


É comum que parlamentares de diferentes lados do espectro ideológico por vezes postam publicações inverídicas - por erro ou má fé - ou, de forma sútil, descontextualizada.


Este é o grande temor sobre a adoção de medidas mais duras contra notícias falsas na legislação. Uma lei abrangente e equilibrada sobre o tema poderia ser um banho de água fria especialmente para situacionistas na corrida das eleições municipais, essenciais para as nacionais, em 2022.


Seja qual for o destino da proposta, fica o alerta aos políticos: usuários e consumidores, excluindo militantes pagos e influenciadores, estão cada vez mais intolerantes com quem dissemina notícia falsa.


Para além disso, a temperatura judicial e política no país permite interpretação de que disseminadores de fake news terão de ter mais cautela: em um duro movimento contra essas redes, ligadas a militantes bolsonaristas e empresários, o Facebook anunciou a retirada de 35 contas, 14 páginas, um grupo de seu site e outras 38 do Instagram.


A investigação feita pela empresa que resultou no movimento terá de ser compartilhada com a Polícia Federal no âmbito das investigações do Supremo que investigam fake news e manifestações antidemocráticas.


O Gigante acordou


Como reflexo desse complexo embate, o Brasil importou mais uma novidade. Em maio, a organização “Sleeping Giants” inaugurou um perfil no Twitter, para expor as marcas com anúncios postados em sites de extrema-direita, que comumente se utilizam de Fake News e táticas de desinformação para manter a militância bolsonarista acesa.


Muitas empresas foram avisadas pelo perfil de que seus anúncios iam parar nesses sites, e marcas importantes trataram de endurecer suas políticas. Deu tão certo que o site extremista “Jornal da Cidade Online” ficou completamente desmonetizado. Esse é um assunto polêmico, com várias nuances. E você, o que acha desses boicotes? E sobre a lei das fake news? Comenta aí!


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