• Ana Luiza Noronha

A pandemia do COVID-19 e o papel das ONGs no Brasil

Entre um governo negacionista e uma população que lota praias, as ONGs batalham para auxiliar a população vulnerável.

A pandemia do COVID-19 escancarou os problemas do Brasil, desde as desigualdades sociais até questões políticas, além de um governo que não baseia suas decisões na ciência e deixa a população confusa.


Tomaz Silva/Agência Brasil

No meio do furacão, estão as organizações não governamentais (ONGs), movimentos civis e associações que mesmo com redução de financiamento, seguiram fazendo o seu trabalho e auxiliando a população vulnerável do país.

Em uma rápida pesquisa na internet, é possível encontrar diversas ações solidárias e pessoas que estão ativamente fazendo algo para auxiliar quem mais precisa nesse momento tão devastador para o Brasil. Conversamos com algumas delas, como a ONG Médicos Sem Fronteiras no Brasil (MSF-Brasil), a ONG Ação da Cidadania e com um dos responsáveis pelo Movimento Família Apoia Família.

Principais ações das ONGs

Durante a pandemia, cada ONG direcionou suas ações para ajudar as populações vulneráveis em diversas frentes. O Médicos Sem Fronteiras começou suas atividades em abril no país para atender aqueles com dificuldade de acesso à saúde. O trabalho focado em certas localidades ajuda a fazer a diferença dentro de um contexto em que há grande demanda de recursos materiais e humanos em função da pandemia.

Atualmente, a entidade está focada na zona leste de São Paulo, em Boa Vista, reforçando o sistema de saúde local devido à chegada de migrantes e refugiados venezuelanos e na região Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, onde estão atendendo a população indígena.

Com o slogan “Quem tem fome tem pressa”, a ONG Ação da Cidadania tem um papel fundamental no combate à fome e à miséria no Brasil. Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania, destaca que durante a pandemia conseguiram uma das maiores arrecadações da história deles.


Mesmo congelando alguns projetos, atualmente a ONG foca na segurança alimentar e já distribui cestas básicas para mais de 2 milhões de brasileiros. “Em uma das maiores arrecadações de nossa história, fizemos chegar alimentos para famílias nos lugares mais remotos do país, comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e comunidades em todos os estados”, explica.

Já o Movimento Família Apoia Família foi criado durante a pandemia para incentivar e organizar doações, a iniciativa foi articulada por institutos, fundações filantrópicas, lideranças comunitárias e ONGs de base comunitária. A plataforma é aberta e cria um senso de comunidade ao convidar famílias brasileiras a cuidar uma das outras durante toda essa crise.

O movimento surgiu, principalmente, para ajudar os moradores da periferia que foram atingidos em cheio com a falta de dinheiro e alimentos. “Com a pandemia, os impactos vão além da área diretamente relacionada à saúde. As ações de isolamento social trouxeram um forte impacto econômico atingindo pessoas que já estavam em situação de vulnerabilidade, escancarando as fragilidades das desigualdades sociais”, afirma Rodrigo Pipponzi, vice-presidente do Instituto ACP e sócio da Editora MOL, algumas das entidades por trás desse movimento.

A plataforma ainda expõe os projetos de diversas ONGs pelo país, onde você pode doar diretamente para cada uma. Na primeira semana, foram arrecadados mais de R$ 3 milhões destinados para várias ações, beneficiando mais de 3 mil família. Atualmente, mais de 11 mil famílias foram ajudadas.

“A intenção é que todos consigam visualizar quem está precisando de apoio e quem já conseguiu bater sua meta, em todo Brasil. Com isso, a plataforma torna-se ferramenta para uma doação mais estratégica, articulada. Já as ONGs podem saber do trabalho umas das outras e se ajudar. Um verdadeiro ponto de encontro. Uma campanha mobilizadora. Por meio da plataforma configura-se um painel para acompanhamento da evolução dessa rede de solidariedade que está se formando no país”, explica Pipponzi.

Dificuldades encontradas

O trabalho das ONGs nunca é fácil. Dentro de um cenário de pandemia, as coisas podem ficar ainda mais difíceis. No início, o Médicos Sem Fronteiras enfrentou a falta de material de proteção e dificuldades de deslocamento de profissionais e equipamentos para lugares que necessitavam de assistência.

Diogo Galvão, especialista em assuntos humanitários de MSF-Brasil, destaca como o Brasil tem passado por problemas que não afetam só o trabalho dos médicos, como também o impacto geral da pandemia.

“Há um desalinhamento entre as orientações por parte de diferentes esferas de governo que tem levado a uma falta de coesão em relação às orientações quanto à necessidade de distanciamento social e adoção de medidas para prevenir o contágio. Nossa experiência em epidemias anteriores mostra que quando há um direcionamento claro, é mais fácil implementar as medidas necessárias para que se possa sair mais rápido da situação de emergência”, explica.

A disputa entre governos locais e federal impediu que o Brasil tivesse uma coesão de ações. O Supremo Tribunal Federal (STF) deu autonomia para que Estados e municípios tivessem liberdade para lidar com a crise, diante da possibilidade de o governo federal proibir a adoção de medidas de isolamento social.

O governo, então, se furtou de dar orientações claras, sob o argumento frágil de que o STF o teria impedido disso, além de contradizer a ciência. Isso gerou um efeito direto na população, nos recursos liberados e ações que poderiam ser tomadas para contar a contaminação do coronavírus.

Contexto da pandemia no Brasil

Em agosto, chegamos ao marco de seis meses desde que o primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil. Desde então, entre baixos e baixos o país vai se perdendo nessa luta contra a “gripezinha” que já matou 125.615 de brasileiros e contaminou mais 4 milhões, segundo o levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde (até às 8h, do dia 5 de setembro).

Os estados Amazonas, Rondônia e Tocantins apresentam alta de mortes. Estados como São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Roraima, Ceará, Maranhão, Paraná, estão estáveis. Os outros estados estão apresentando uma queda de número de mortes.

Em abril, um estudo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) apontou a necessidade urgente de um isolamento social de cerca de 75% para evitar que o Brasil alcançasse milhões de mortes.

A população, entretanto, chegou a uma taxa máxima de 62,2% em 22 de março, de acordo com os gráficos da Inloco. O mais interessante desses gráficos é notar como os casos e mortes vão aumentando e a taxa de isolamento social vai diminuindo.

Com mais de 100 mil mortes, vemos as praias do Rio de Janeiro lotadas. Sem falar que nas redes sociais as pessoas perderam a vergonha de mostrar que não estão mais realizando o distanciamento social. Aparentemente, o “novo normal” é ignorar o que ainda está acontecendo.

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